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Quando a fala nos surpreende: o ato falho em Freud e Lacan

Bianca Pimentel | Psicóloga | CRP 01/29501 | Leitura estimada: 5 minutos

Às vezes, dizemos uma palavra no lugar de outra e só percebemos depois. Podemos rir, nos constranger ou corrigir rapidamente o engano. Para a psicanálise, esses acontecimentos podem se tornar material de investigação: o que participou daquela troca, além do que pretendíamos dizer?

Em Psicopatologia da vida cotidiana, publicada em periódico em 1901 e em livro em 1904, Freud investiga esquecimentos, lapsos de fala, escrita e leitura, extravios e ações equivocadas. A obra amplia questões que ele já havia apresentado em um estudo sobre o esquecimento, de 1898. O termo alemão Fehlleistung, traduzido como “ato falho”, reúne esses acontecimentos cuja determinação psíquica Freud procura compreender. Sua ocorrência, por si só, não indica adoecimento (Freud, 2021 [1901]).

O conflito que participa do engano

Nas Conferências introdutórias à psicanálise, Freud distingue a intenção perturbada, correspondente ao propósito que sofreu interferência, da tendência perturbadora, que altera esse propósito e encontra expressão no engano. Ambas pertencem à vida psíquica de quem fala, embora sua participação nem sempre seja reconhecida conscientemente (Freud, 2014 [1916–1917]).

O ato falho pode constituir uma formação de compromisso: tendências em conflito encontram uma realização parcial. O resultado conserva algo do propósito inicial e, ao mesmo tempo, dá expressão ao que interferiu nele. A falha diz respeito ao que se pretendia fazer ou dizer, isso não impede que outra tendência se realize por meio dela.

Por isso, a expressão “falou o que realmente queria” é insuficiente. Ela sugere que haveria uma vontade verdadeira e única, escondida atrás da fala, pronta para ser descoberta. A formulação freudiana exige considerar o conflito e as relações do acontecimento com outros pensamentos. Aires (2017) examina esse procedimento de interpretação, no qual o sentido depende da posição do ato falho numa cadeia de relações psíquicas.

O recalque participa dessa discussão como processo que afasta representações da consciência sem eliminar seus efeitos. É preciso, porém, distinguir as situações. Freud descreve tendências perturbadoras percebidas antes do lapso, tendências reconhecidas quando são apontadas e outras cuja interpretação é rejeitada pelo falante. Decidir conscientemente não dizer alguma coisa não equivale, por si só, ao recalque. Da mesma forma, desconhecer uma tendência não significa escondê-la deliberadamente do analista. A recusa de uma interpretação também não basta para demonstrar que ela esteja correta (Freud, 2014 [1916–1917]; Aires, 2017).

No esquecimento do nome Signorelli, Freud acompanha os nomes substitutos que lhe ocorreram e suas ligações com assuntos de uma conversa anterior. A investigação se desenvolve por essas associações. Saber apenas que alguém esqueceu o nome de um artista não permitiria chegar às mesmas relações nem estabelecer um significado universal para esse esquecimento (Freud, 2021 [1901]).

O que Lacan encontra na falha

Em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, de 1953, reunido nos Escritos, Lacan afirma que “todo ato falho é um discurso bem-sucedido” (Lacan, 1998 [1953], p. 269).

A frase retoma o problema colocado por Freud: uma fala pode fracassar em relação ao propósito consciente e, nesse mesmo acontecimento, permitir que algo do inconsciente seja dito. O “sucesso” não significa que o lapso seja desejável ou que revele uma verdade completa sobre quem o cometeu. Refere-se ao que encontra expressão apesar da intenção que orientava a fala.

Lacan chama atenção para o trabalho da linguagem nessa experiência. As palavras se ligam por seus sons, diferenças, repetições e possibilidades de combinação. Uma troca pode adquirir importância pelas relações que estabelece com outras palavras na fala daquele sujeito. Isolá-la dessas relações empobrece a investigação.

Essa leitura questiona o domínio que acreditamos ter sobre o que dizemos. O eu que pretende comunicar alguma coisa pode se surpreender com a própria fala. Escutar essa surpresa exige acompanhar o que vem antes e depois dela, sem decidir antecipadamente o que a palavra deveria revelar (Lacan, 1998 [1953]).

O lapso na escuta clínica

Na análise, um lapso pode ser retomado por uma repetição, uma pontuação ou um convite a continuar falando. Pela associação livre, o analisante é convidado a dizer o que lhe ocorre, mesmo quando uma lembrança ou uma palavra parece irrelevante. Esse percurso permite investigar relações que não estavam evidentes no momento do engano (Aires, 2017).

Duarte (2013) apresenta um caso em que um ato falho levado à análise se torna uma questão para a analisante. A autora acompanha o trabalho clínico a partir desse dito e discute a participação dos cortes, das pontuações e das interpretações no tratamento. O caso mostra como um lapso pode ganhar importância quando passa a interrogar quem o produziu.

Esse trabalho se dá na transferência. O que é dito na sessão também se dirige ao analista e participa da relação estabelecida com ele. A interpretação precisa considerar esse endereçamento e o percurso do tratamento, em vez de tratar o lapso como uma peça separada da experiência analítica (Duarte, 2013; Lacan, 1998 [1953]).

Como orientação clínica, isso exige atenção ao momento de intervir. Nem todo lapso precisa ser destacado imediatamente. Sua importância depende do que vinha sendo dito, do lugar que ocupa no tratamento e das associações que podem surgir. Uma pontuação pode levar o analisante a retomar uma palavra e encontrar relações que ainda não havia considerado. Também pode não produzir esse efeito.

O trabalho não termina quando se encontra uma explicação plausível. É preciso acompanhar o que a interpretação produz na fala e no percurso de quem está em análise. Às vezes, o pequeno engano que seria corrigido e esquecido se torna uma questão que o sujeito pode, enfim, começar a formular.

Referências

AIRES, Suely. Atos falhos: interpretação e significação. Natureza Humana, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 24–37, 2017.

DUARTE, Lenita Pacheco Lemos. O ato falho cifrado: que lugar para o ato analítico? Stylus Revista de Psicanálise, Rio de Janeiro, n. 27, p. 91–103, out. 2013.

FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias à psicanálise (1916–1917). Tradução Sergio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (Obras completas, v. 13).

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana e Sobre os sonhos (1901). Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. (Obras completas, v. 5).

LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 238–324. Texto de 1953.

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